RIO DE JANEIRO – UPP: maioria de PMs critica formação e 66% veem morador descrente

 

Morro Santa Marta é um dos ocupados pela PM. (Foto: Instituto Pereira Passos / César Duarte)

Morro Santa Marta é um dos ocupados pela PM. (Foto: Instituto Pereira Passos / César Duarte)

Quando anunciou a expulsão de PMs suspeitos de forjar a cena de um crime no pacificado Morro da Providência, José Mariano Beltrame admitiu que o episódio poderia abalar a imagem das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs). Para o secretário de Segurança Pública, no entanto, prevaleceria a imagem dos bons policiais, e não as exceções violentas ou corruptas. Não é o que mostra pesquisa realizada entre 2010 e 2014 pela Universidade Cândido Mendes sobre as UPPs, onde PMs percebem a descrença de moradores e revelam a própria insatisfação com o andamento do projeto.

O sentimento negativo da comunidade em relação aos policiais das unidades impera para 60,1% dos mais de dois mil policiais entrevistados. O salto desta impressão negativa nestes quatro anos é de quase 32 pontos percentuais.

O descontentamento é ainda mais evidente para os 66% que, no ano passado,  tinham sido xingados por moradores ou para aqueles que sentiram na pele: os 56% que foram alvos de objetos arremessados por moradores.

Realizado pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec), a terceira fase do projeto “UPPs: o que pensam os policiais” recebeu a coordenação de Barbara Musumeci Mourão, Leonarda Musumeci e Silvia Ramos. Foram ouvidos 2 mil policiais de 36 UPPs (1.896 soldados e 106 cabos), numa amostra que representaria o conjunto das UPPs e tem margem de erro de 4%.

Morador grava PMs forjando cena do crime no Morro da Providência (Foto: Reprodução / TV Globo)Morador grava PM forjando cena do crime no Morro
da Providência (Foto: Reprodução / TV Globo)

O baque na relação morador-policial pode ter várias causas, para as quais a pesquisa tenta apontar. O medo aumentou para os agentes — 42,4% deles se sentem inseguros ou muito inseguros em seu trabalho. O distanciamento da prometida polícia de proximidade, na qual prevaleceria a conciliação de problemas em vez da adoção de medidas bélicas, também pode ser um problema. Se apenas 5,3% dos policiais tiveram reuniões com moradores, 56,4% já fizeram abordagens.  Sem contar que a maioria dos agentes se queixa das condições de trabalho e da formação: 51,7%.

Há ainda um fator (às vezes até fora da comunidade em questão) que acaba estremecendo a relação, na opinião das pesquisadoras. Cenas como a flagrada no Morro da Providência, de PMs forjando o confronto com um rapaz já morto, acabam sensibilizando toda a população. “Como é que aqueles policiais [de UPPs] aprenderam isto, se tiveram outra preparação? A gente vê que há uma contaminação do que há de pior da polícia convencional”, opina a coordenadora da pesquisa Silvia Ramos. E isto, segundo ela, provoca um desânimo generalizado. “Más notícias contaminam”, diz.

Política de proximidade
“Menina dos olhos” da política de proximidade, a ronda a pé pela comunidade vem sendo trocada pelo Grupamento Tático de Política de Proximidade. Para as especialistas, o grupamento conhecido pela sigla GTPP ou pelo apelido “bonde” (nas favelas), acaba atuando como um “miniBope” (Batalhão de Operações Especiais). Abordagens e confrontos dentro da comunidade acabam sendo mais comuns, tornando o grupamento o maior alvo de desaprovação.

A “lógica do batalhão comum”, que preocupa as especialistas, parece chegar às comunidades. Um dos poucos números que aumenta na pesquisa é o de policiais que se dizem “encaixados” no perfil das UPPs. As pesquisadoras Silvia, Leonarda e Barbara, coordenadoras da pesquisa, se perguntam: será que eles se sentem familiarizados lá por que a UPP mudou e ficou mais parecida com os batalhões comuns?

G1.

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